Por que autorretrato?

Ao longo da trajetória da história da arte, muitos pintores se retrataram em diversos períodos e movimentos. De uma maneira geral, os autorretratos eram vistos como exercícios técnicos. A fotografia, bebendo nesta primordial fonte de referências, seguiu e segue nesta tradição, num infinito processo de ressignificação. O tema do autorretrato na fotografia contemporânea é abundante em produção, porém um pouco escasso em reflexões e literaturas. Mas, por que se autorretratar?

Nomes de fotógrafos evidenciados pela obra voltada ao gênero são diversos, em diferentes períodos históricos: a mítica norte-americana Francesca Woodman (1958-1981), a recém-revelada-e-já-cultuada babá fotógrafa-de-final-de-semana Vivian Maier (1926-2009) e, mais célebre de todas, Cindy Sherman (nascida em 1954). E a lista continua interminável. Aqui no Brasil, podemos apontar para os trabalhos relevantes de Fernanda Magalhães, Helenbar, Luiza Bulamarqui, Sheila Oliveira, entre outros.

O selfie (palavra do ano do dicionário Oxford, 2013) pode facilmente ser associado ao estereótipo que segue numa fórmula quase universal: jovens + redes sociais + ostentação + exibicionismo = mais do mesmo. O interesse está restrito ao círculo de conhecidos e lá se encerra.

Algumas enumerações de características próprias do selfie podem ser apontadas: espontaneidade, narcisismo, superficialidade, o ângulo de tirada de fotografia restrito ao alcance do braço (sem muitas possibilidades de variação), a pessoa está segurando a câmera (identificável pela presença do braço nos cantos da foto), baixa qualidade de imagem (câmera de celular), pessoa só ou em grupo. Hoje em dia, os selfies se estenderam aos vídeos de curta duração, cuja plasticidade se assemelha à da fotografia. Ambos feitos com intuito de autopromoção e para compartilhamento em redes sociais. Que linguagem é essa? Que narrativa?

 

Stanley Kubrick
Antes de se tornar cineasta, Stanley Kubrick era fotógrafo e já fazia autorretrato.

É bastante comum que os fotógrafos produzam autorretratos: Stanley Kubrick (antes de se aventurar no cinema, ele era fotógrafo e tinha obsessão estendida à cinematografia e teve uma lente produzida pela NASA especialmente para as filmagens à luz de velas de Barry Lyndon), André Kertész, Jacques-Henri Lartigue e assim vai.

 

Voltando às características singulares dos autorretratos, pode-se apontar: uma pessoa se retrata utilizando uma câmera, que pode estar aparente na foto ou não (a pessoa pode usar o temporizador ou controle remoto), sua silhueta refletida, sua sombra marcada, como mostram as imagens de Vivian Maier.

 

Vivian Maier
Série de autorretratos de Vivian Maier, explorando elementos característicos do gênero: espelhos, sombras, silhuetas e retrato sem câmera aparente.

 

O que separa, então, um selfie de um autorretrato?

Ambos têm narrativas e linguagens próprias. Tendo definido um selfie e um autorretrato, agora parte-se para a versão mais artística do autorretrato e suas particularidades: um fotógrafo, ao se retratar para uma série, elege se despir de sua vaidade ou não; não há necessidade de sorriso nem da busca do ângulo mais fotogênico; a tomada fotográfica não precisa ser imediata ou espontânea; a pessoa opta por estar presente na foto e como será sua presença; caso o fotógrafo opte por estar ausente em corpo, ele marca sua presença por meio dos objetos que irão representá-lo; representação total ou parcial do corpo; a pessoa utiliza o corpo enquanto matéria de elaboração da obra. Por trás da imagem há uma operação.

 

 

Série Nos templos do Armário, de Luiza Burlamaqui (2009)
Série Nos templos do Armário, de Luiza Burlamaqui (2009)

 

Na fotografia, como em qualquer campo das artes, sejam elas visuais ou não, a verdadeira arte não é gratuita. Nada está lá por acaso. Existe um porquê. O autorretrato é um processo subjetivo, criativo, solitário e que demanda um procedimento. Pode resultar de experiências, fantasias, vivências, sonhos e sensações. Por isso, não se pode confundir um autorretrato com um selfie simplesmente, e vice-versa. Basta ver e observar.

 

 

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Agradecimentos mais que especiais para: Tassia Valente, Luiza Burlamaqui e toda equipe da revista ❤

Artigo escrito por mim para publicação da REVISTA INSIGHT PHOTO edição #3, projeto contemplado pelo edital XII Prêmio Marc Ferrez de Fotografia (2013).

Para quem quiser acompanhar mais o projeto e ler toda a revista, passa acessar www.revistainsightphoto.com

Editoria: Layo Bulhão

Curadoria:

Márcio Vasconcelos

Dinho Araújo

Carolina Libério

 

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